--[Never Of Oficial--: Uma noite na ópera

Uma noite na ópera

Recom
Andreas Kisser

Por Andreas Kisser . 23.04.10 - 14h54

Uma noite na ópera

O título da minha coluna nesta semana é a tradução, na minha modesta opinião, do melhor disco da história do rock:  ‘A Night at the Opera’, do Queen. Mas não é por isso que usei este título e sim porque acabo de chegar de uma ópera em Praga, na República Tcheca. Essa foi a minha primeira experiência numa ópera e foi simplesmente inacreditável. Quem de vocês já teve a oportunidade de assistir a uma? Infelizmente, no Brasil é raro ver boas óperas.  O país recebe alguns concertos e solistas eruditos, mas quando se fala em ópera é difícil encontrar um espetáculo.
A ópera que fui assistir em Praga é uma das maiores obras do compositor tcheco Antonin Dvorak (1841-1904). A “Rusalka” foi escrita em 1900, quando o músico já tinha vasta experiência em composição. O libretto foi escrito pelo poeta Checo Jaroslav Kvapil (1868–1950), baseado em contos de fadas e sereias. O teatro da Ópera do Estado de Praga é fantástico (veja aqui), fica ao lado do Museu Nacional, uma região bem turística da cidade.
O espetáculo é dirigido pelo diretor de cinema Zdenek Troska, o que traz muitas inovações para o palco, fazendo da ópera uma experiência ainda mais fantástica. Ele mistura cenas pré-gravadas com o cenário estático, fazendo os dançarinos e cantores saírem da tela e tomar vida no palco. O figurino é impecável, a orquestra afinadíssima e o clima te leva de volta ao passado, como se estivesse em 1901, quando foi a estreia de “Rusalka” em Praga. A ópera é toda em tcheco, mas bem acima do palco existe uma tela que traduz as árias por meio de legendas em inglês e alemão, além do programa oficial, que faz uma sinopse da história. É importante saber o que se passa, sem saber o enredo fica difícil curtir o espetáculo, os cenários e os figurinos. Não sabia nada desta ópera, apesar de gostar do estilo – tenho alguns CDs com algumas óperas de Mozart e Wagner, além de conhecer as mais famosas como “Aida”, “Carmem” e a brasileiríssima “O Guarani”, de Carlos Gomes. E por falar de ópera nacional, essa é a única que conheço, já que o erudito é um estilo que nunca realmente “pegou” no nosso país. Talvez por termos começado tarde, já que a ópera foi perdendo popularidade no início do século passado.

Bem, de volta a Praga, comprei o programa oficial, li a sinopse e percebi que os temas não mudam muito: a tragédia, os desejos, traições, arrependimentos, culpa e perdão, temas recorrentes na maioria das óperas. Também percebi que os mesmos temas estão nos livros que influenciaram os dois últimos trabalhos do Sepultura, “A Divina Comédia”, que deu origem ao disco “Dante XXI” (2006), e “Laranja Mecânica”, que inspirou o álbum “A-Lex” (2009). Coincedentemente, ou não, as três obras são divididas em três partes distintas, onde o começo é recheado de desejos e sonhos, seguido das experiências e consequências destes desejos e, por fim, o arrependimento, o perdão e a salvação, mostrando que para se aprender na vida não tem outro jeito, a gente tem que passar pelos tempos escuros e indefinidos, para depois chegar ao objetivo, que acredito seja o de todos, que é ser feliz. É incrível como o ser humano é o mesmo, apesar dos séculos irem passando,  com os mesmo problemas sentimentais, as mesmas dúvidas e as mesmas fraquezas, sempre dependente de algo.
Com o passar do tempo, as óperas foram substituídas pelos filmes musicais produzidos em Hollywood e pelos grandes espetáculos teatrais da Broadway.  Inclusive, este formato está chegando ao Brasil com força, dando espaço e empregos para novos talentos, profissionais da voz, música, direção, figurinos e cenários. É claro que ainda estamos engatinhando no assunto, copiando os temas americanos, mas é um grande começo. Eu fui assitir à estreia de “Hair Spray”, em São Paulo, e gostei muito, mas nada comparado à experiência em Praga. As óperas ainda têm um poder extraordinário de te levar de volta ao passado e, ao mesmo tempo, refeltir sobre o mundo que a gente vive hoje.
O tempo ficou mais curto, todo mundo tem cada vez mais pressa, menos paciência e menos tempo para a reflexão. Hoje em dia, não existem muitas pessoas que “perdem” o seu precioso tempo para ir a um concerto, ler um livro, pesquisar sobre os compositores, os autores. Poucas pessoas se interessam em saber quando e em que condições uma obra foi escrita e porque alguns livros foram escritos. Tudo é um aprendizado e, para se aprender direito, temos que ter tempo de digerir e curtir as novas informações, com respeito ao passado e vivendo intensamente o presente para garantir um futuro. A pressa é a inimiga da perfeição, dê um tempo a você mesmo.
Enfim, não fique com medo ou vergonha de ir a uma ópera, eu garanto que vai ser uma experiência única, inesquecível e muito educativa.
Abraço, play it loud!
Andreas Kisser

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